A bolha da IA e a demanda por burrice.



        Nos anos 1970 e 1980 Ted Kaczynski, mais conhecido como Unabomber, ficou conhecido por protestos violentos contra cientistas. Suas ações exigiam a publicação de seu manifesto, o “Manifesto do Unabomber”. Neste documento argumentava com um rigor acadêmico que o avanço científico seria o fim da humanidade. Hoje me pergunto se ele não estaria certo…


A liberdade dos inteligentes.

Nos idos de 2005 estava numa sala de professores quando o diretor da escola solicita a secretária que digitasse um documento. A mesma se senta diante do terminal e começa o trabalho. Lenta na execução, o diretor de maneira muito errada lhe dá uma bronca exigindo diligência. Nisso, uma professora, já idosa, pede licença. Havia uma máquina de escrever. Senta-se diante da mesma, alinha um sulfite no rolo, e rapidamente datilografa a folha. Orgulhosa de sua competência entrega o documento para o solicitante, perfeito, impecável, sem um erro. Aí é que está. Se não existissem pessoas incapazes de datilografar não precisaríamos de editores de texto. E para termos demanda por produção textual feita por Inteligência Artificial precisamos de uma classe de pessoas ou analfabetas ou tão preguiçosas e sem brio a ponto de delegarem a um robô que escreva para eles. Este mesmo que lhes escreve por ser tão burro a ponto de não saber desenhar usa a IA para criar algumas ilustrações deste texto.


A bolha da IA.



As empresas de Inteligência Artificial em 2025 vivem uma eminente crise, uma bolha. Trilhões foram investidos e os retornos são míseros. Só em 2025 foram investidos 1,25 trilhão. Oficialmente os lucros são na ordem de 20 a 30 bilhões. Mas há especialistas como o cientista brasileiro Miguel Nicolelis fala de um rombo trilionário. Uma bolha financeira que quando explodir poderá gerar uma crise econômica pior que a crise de 1929.


As demandas do futuro.



Muitos desafios da IA já foram superados, velocidade,miniaturização, resfriamento de data centers, produção de eletricidade, matéria prima (terras raras) para fabrico de componentes. Esse desafios técnicos são facilmente superados. Na verdade o saldo sempre e economicamente positivo. Isso tudo gera trabalho, demanda, consumo, produção, venda e lucro. Esse nunca foi o problema. Se for preciso encrustam um centro de processamento de IA na Antártida. Vento e frio para energia e resfriamento infinitos. O maior problema é a demanda pelo produto.


Precisa-se gerar burrice…




Esse é o ponto, a muito tempo sabemos que tão importante quanto criar um produto é inventar a necessidade. Para a eletricidade os eletrodomésticos, para a segurança a violência, para o fast food uma rotina desumana, e para a inteligência? É essencial que as pessoas sejam burras. Um fato curioso ocorre no Brasil em 2025, o fim da obrigatoriedade do curso em auto escola para habilitação de trânsito. Talvez isso seja apenas uma hipótese desmedida, mas no dia em que as estatísticas mostrarem que o ser humano se tornou tão burro a ponto de não ser seguro deixá-lo dirigir a demanda por veículos autônomos será muito grande. 


Educando para a burrice.



Os sistemas de educação já estão tratando de fazer isso. Jovens dependentes de plataformas, escrita digital, parágrafos feitos por IA, ou mesmo antes disso o tácito copia e cola. O foco do treinamento de professores da educação básica não é mais o conteúdo, a inteligência, o saber. O objetivo das escolas e a metodologia, é ensinar a encontrar e não a fazer. A muito tempo pessoas que sabem, que fazem, e até professores que tem o conteúdo sem precisar consultar um manual ou até mesmo o celular pronto a lhe dar resposta é algo raro. Saber, ser inteligente é uma virtude que não só está em extinção, é perigoso.


A obsolescência da inteligência.


    

        A sociedade já está convencida de que não é necessário saber. Para quê conhecer, guardar informações se na internet tudo se lhe é dado rapidamente e com segurança? Os objetivos da vida se tornaram o lucro, o dinheiro, o enriquecimento. Com isso, os intelectuais, os inteligentes que não enriquecem são tolos. Não é incomum taxarem artistas de rua, pensadores, escritores, como vadios, ociosos, com os valores mais negativos. Virtuoso é aquele que não perde tempo com pensamento, arte, música, reflexão e se dedica ao trabalho visando enriquecer. Aspectos essencialmente humanos estão sendo tratados como descartáveis e legados a IA.


Consequência do avanço tecnológico?




Não, essa aberração não é consequência de um avanço tecnológico, consequentemente da ciência. Isso é consequência da ambição por lucro. Diria melhor, resultado de um mecanismo imparável do capitalismo. Não sei se é possível afirmar que o crescente lucro é um plano objetivo de certas mentes. Talvez seja o resultado de uma roda que não para. Cessar o lucro crescente de corporações gigantescas significaria recessão, depressão econômica, inflação e depois deflação, uma nova idade média. A medida que a humanidade cresce vegetativamente o aumento da economia é imprescindível. Investidores no limiar do mercado de informática perceberam nesse ramo um nicho de investimento e assim o fizeram. Há muito capital aplicado nesse mercado e ele não pode parar de crescer. O mercado de tecnologia, de IA, é maior que ramos vitais para a vida humana, como alimentação ou saúde. É empiricamente observável, o indivíduo não consome carne de primeira mas tem um celular de última geração. Os investidores acertaram e o mundo como conhecemos será consumido, pelo menos profundamente transformado, pela técnica e tecnologia.


Isso não vai parar?



Prever o futuro é algo realmente impossível. Mas talvez, quando a IA estiver plenamente implantada, quando todos os seres humanos forem convertidos a nova fase da evolução, ou involução, a demanda econômica mude sua direção e a tecnologia entre em estagnação. Talvez. Como previu Aldous Huxley em "Admirável mundo novo", talvez o "progresso", o avanço tecnológico seja algo não só desnecessário como incompatível com o mundo. Na visão do autor num futuro distópico os inventores, os criadores seria segregados pois o mundo não poderia perde sua estabilidade por conta de novas ideias. Se a Inteligência Artificial for lógica, racional, talvez ela conclua o mesmo. Que haja um teto para o "avanço". O futuro é algo que realmente não se pode prever. Não conseguimos saber se a humanidade realmente vai se render a tamanha realidade medíocre, se não haverá um movimento de reversão do quadro, se a inteligência humana é indomável ou se a economia irá encontrar oportunidade de lucrar com o "retrocesso tecnológico". O fato é que um futuro dominado por inteligências não humanas e com o ser humano relegado ao estado de mero consumidor é assustador.

    Vamos salvar o mundo.



Se as pessoas não se tornarem burras imediatamente a economia global pode entrar em depressão. A burrice é a grande mercadoria que moverá o mundo. Se você quer salvar a humanidade dissemine a burrice: conhecimento através de vídeos, podcasts, joguinhos, toda e qualquer tolice que não seja ler e ter pensamento crítico. Não é a toa que plataformas digitais pagam para as pessoas assistirem seus vídeos vazios, alguns falsamente instrutivos. Cultivar a burrice é um grande mercado essencial.

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